Doca Street, Lindomar Castilho e a gente

Rafael Pagnon Cunha

Praia dos Ossos. Angra dos Reis. 30 de dezembro de 1976. O Playboy Raul Fernando do Amaral Street, vulgo Doca Street, dispara quatro vezes na socialite mineira Angela Diniz. A ‘Pantera de Minas’. Sua ex-namorada. Quatro tiros. Três no rosto. Um na nuca. Motivo: não-aceitação do fim da breve e rarefeita relação de três meses, por iniciativa dela. Foragiu. Entregou-se posteriormente. Preso preventivamente. Submetido a Juri Popular, em evento que parou o país, teve a narrativa defensiva acolhida. À unanimidade. Condenado – todavia, a dois anos de prisão, concedida suspensão condicional da pena. Posto imediatamente em liberdade. Tese acolhida pelo Conselho de Sentença: “legítima defesa da honra (masculina)”. Decisão reformada pela Superior Instância. Novo Juri, antecedido de forte atuação do jovem e efervecente movimento feminista. Dessa vez, condenado a 15 anos de prisão, por homicídio qualificado.

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Boate Belle Époque, São Paulo. 30 de março de 1981. Apresentava-se a cantora Eliane de Grammont. Ingressa no local o também artista, ex-marido da cantora, Lindomar Castilho. O ‘Rei do Bolero’. Seu maior sucesso: Você é doida demais, tema de abertura da memorável série Os normais, da TV Globo. Eliane é morta por Lindomar. No palco. Cinco tiros nas costas. Por tê-lo deixado. Por ter escolhido ser feliz. Preso em flagrante. Submetido a Juri Popular, condenado a 12 anos de prisão.

Em comum, duas mulheres fortes. Inteiras. Independentes. Livres. À frente de seu tempo.

Personagens masculinos: dois homens frágeis. Possivelmente narcisistas. Incapazes de lidar com o abandono – e com a solidão que se segue. Com a rejeição. Com o luto.

Presente, da mesma forma, símile solução ao problema que a vida lhes apresentou: o uso da violência como resposta. Estratégia comum ao universo masculino. Talvez a única que conheceram. A única que lhes (nos) ensinaram.

Ainda que distemos 50 anos do primeiro caso, 45 anos do segundo, a sensação é de deja vu. O sentimento é que ingressamos em um Túnel do Tempo (qual o seriado, que só os veteranos conhecemos). O trágico 23º feminicídio no Estado do Rio Grande do Sul em 2026 emoldura as manchetes. A impressão é que voltamos às décadas de 70 e 80. As mortes de mulheres são a triste e sinistra razão desse sentimento. Mortes evitáveis, precisamos repetir sempre. E todas pela mesma razão: a imatura e inaceitável resposta masculina à perda do que consideram um objeto: as vítimas de feminicídio. Uma coisa sua. Um bem, de sua propriedade. Aquela que um dia fora sua mulher. Sua. Somente sua. E de mais ninguém – estimam os feminicidas. Assim pensam. E assim agem. Considerando-se seus donos, autorizam-se a ceifar planos, sonhos e projetos. A arrancá-las de nós. Se não forem deles, não serão de homem algum...

Avançamos muito de 1976 até hoje. As mulheres conquistaram – com inigualável esforço – autonomia e liberdade que sempre as deveriam ter acompanhado. A nem todos homens, porém, isso parece natural. “Quem ama não mata”, slogan que acompanhou as feministas da década de 70, após o primeiro julgamento de Doca Street, nunca esteve tão atual.

Pois é exatamente isso. Quem ama não mata. Quem ama cuida. Protege. Como todo homem forte sempre fez. E é expressão de uma masculinidade virtuosa, que precisa ser retomada. Porque o combate aos feminicídios é guerra de todos. Especialmente dos homens. Dos homens bons e valorosos. A maioria de nós. Estamos na mesma trincheira. Precisamos agir.

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